Riscos de uma crise importada
O mundo político, do Itamaraty ao Congresso, deve acompanhar a transição, dialogar com o novo governo, zelar pelos brasileiros que vivem e trabalham no Paraguai e tratar Itaipu e o Mercosul como prioridade. Crises bancárias raramente respeitam fronteiras, e menos ainda quando a fronteira é uma ponte. Ontem, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo dois dias depois de o Banco Central do país decretar a intervenção e a liquidação do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais paraguaios. A medida veio depois que o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido em lei. Os clientes ficaram sem acesso às contas, os aplicativos deixaram de funcionar, e as filas nas agências e os protestos nas ruas marcaram dois dias de pânico. Ao anunciar a saída, Peña disse ter decidido em nome da estabilidade e da paz social e pediu desculpas à população.
O Ueno tem cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente, segundo a própria instituição, a 60% dos adultos do país. Trata-se de um banco de médio porte, e o impacto se mede pelo número de pessoas que acordaram sem acesso ao próprio dinheiro. Concentrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, equivalentes a 29% de seus depósitos, segundo dados da Bloomberg. O Banco Central paraguaio afirma que o restante do sistema mantém solvência e liquidez adequadas e nega a existência de outras intervenções.
A quebra virou crise de Estado porque Peña foi acionista, até março do ano passado, do grupo que controla o banco. A oposição o acusa de conflito de interesses, uso indevido de recursos públicos e acobertamento de irregularidades, e apresentou um pedido de impeachment. O Partido Colorado, do próprio presidente, passou a apoiar a remoção do cargo. Sem sustentação política, Peña renunciou enquanto a Câmara debatia o caso, e o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também apresentou a renúncia. A Presidência passa ao vice, Pedro Alliana, e o Paraguai entra, assim, numa transição com um governo que nasce sob questionamento e um sistema financeiro em teste.
A ligação do Paraguai com o Brasil é umbilical. Itaipu é uma usina binacional, e os dois países integram o Mercosul. O comércio de fronteira movimenta cidades de Foz do Iguaçu a Ponta Porã, produtores brasileiros cultivam terras no leste paraguaio, e bancos e empresas brasileiras operam no país. Um vizinho em colapso financeiro e político tem muitas formas de bater à porta do Brasil.
Há a exposição de instituições brasileiras ao sistema paraguaio e a de cidadãos e empresas do Brasil com contas ou negócios no país. Há a oscilação cambial, e a queda de demanda que podem atingir exportadores e o comércio de fronteira. Há o risco de que a paralisia política atrase decisões sobre Itaipu e o Mercosul. E há o efeito sobre a confiança nos bancos digitais, num sistema brasileiro que liquidou o Master e o Will Bank nos últimos 12 meses e conhece o custo de ver o depositante duvidar. Nada disso está dado, mas preparar-se antes custa pouco diante do que custa reagir depois.
As tarefas são claras. O BC do Brasil precisa mapear a exposição das instituições que supervisiona, manter canal direto com o Banco Central do Paraguai e acompanhar movimentações atípicas de depósitos em bancos digitais e instituições de pagamento. O mercado financeiro deve rever suas exposições, divulgar o que for relevante e testar cenários de estresse antes que eles apareçam. O mundo político, do Itamaraty ao Congresso, deve acompanhar a transição, dialogar com o novo governo, zelar pelos brasileiros que vivem e trabalham no Paraguai e tratar Itaipu e o Mercosul como prioridade.
O Brasil tem tempo, instituições e informação para se preparar. Convém usá-los antes que a crise do Paraguai deixe de ser notícia estrangeira.
Assessoria/Caminho Político
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