PF apura suposto desvio de emendas para filme "Dark Horse"
A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram nesta quinta-feira (10/09) uma operação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e no Distrito Federal na operação batizada de Make Up, termo em inglês para maquiagem. A ação tem como alvo 29 pessoas que teriam participado de um suposto esquema de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares.
A PF suspeita que uma organização criminosa formada por agentes públicos e privados teria direcionado recursos públicos inicialmente repassados a uma entidade da sociedade civil e posteriormente direcionados a empresas subcontratadas irregularmente, sem que houvesse comprovação de que os serviços foram prestados.
Os investigadores identificaram movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas ligadas ao esquema. Segundo a PF, as tentativas de ocultar os recursos desviados das emendas continuaram até julho.
A polícia investiga os crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade documental, peculato (desvio de bens e valores aos quais um funcionário público tem acesso devido ao cargo que ocupa) e crimes licitatórios.
Mario Frias e produtora sob suspeita
O deputado federal Mario Frias (PL-SP) – ex-secretário especial da Cultura no governo de Jair Bolsonaro – e a produtora do filme Karina Gama são alvos da operação, que incluiu buscas no Instituto Conhecer Brasil (ICB) e na Academia Nacional de Cultura (ANC), duas instituições de propriedade de Gama.
Uma auditoria realizada pela CGU apontou suspeita de desvio de uma emenda de R$ 2 milhões indicada por Frias para as entidades de Karina, como gastos não comprovados.
Mario Frias ao lado de Jair Bolsonaro em 2020
O ICB é investigado pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil. A entidade tem um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na periferia da cidade até junho de 2025. Até o momento, porém, apenas 3,2 mil foram instalados.
Ao menos três aditivos mudando a data de entrega do serviço foram assinados.
"Dark Horse" no STF
O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza atualmente duas investigações em torno do filme Dark Horse, ainda não lançado,
Uma delas, sob a relatoria do ministro Flávio Dino, se concentra no possível uso irregular de emendas parlamentares e dinheiro público que teria sido desviado para entidades e empresas ligadas à produtora do filme.
O outro inquérito, cujo relator é ministro André Mendonça, examina os repasses feitos pelo ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, a pedido do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Alguns desses repasses foram enviados para o fundo Havengate nos Estados Unidos, e teriam sido empregados no financiamento do filme. Há suspeitas de que o fundo também teria sido utilizado para custear o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA desde fevereiro de 2025.
Vorcaro teria pagado R$ 61 milhões para a produção de Dark Horse entre fevereiro e maio de 2025, como parte de um cronograma de aportes acertado com Flávio que abarcava cerca de R$ 134 milhões para o filme.
Flávio afirma que atuou apenas na busca de investidores para uma obra sobre a história de seu pai. Segundo o senador, os recursos discutidos eram exclusivamente privados, sem participação de verbas públicas, e não houve oferta de qualquer vantagem em troca de aportes financeiro.
Responsável por "gerar" dinheiro para propinas
Mendonça homologou nesta quarta-feira o acordo de delação premiada do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro. Ele é o proprietário da empresa Entre Investimentos, que, segundo as investigações, fez repasses para a produção de Dark Horse a mando de Vorcaro.
O ministro vem sendo pressionado para avançar no inquérito que apura os repasses para filme. Ele se tornou o centro de uma crise institucional dentro do Supremo, envolvendo uma troca de denúncias entre ele e o também ministro do STF Alexandre de Moraes, com desdobramentos na Procuradoria-Geral da República (PGR) e na PF.
Segundo apuração da jornalista Andréia Sadi, publicada em seu blog no portal de notícias G1, Mineiro afirmou em sua delação que ele era responsável por "gerar" dinheiro para a equipe de Vorcaro. Esse dinheiro, segundo ele, seria utilizado para o pagamento de propinas.
O empresário disse ter feito sete repasses a título de "subscrições de cotas" – processo em que um fundo emite novas cotas para aumentar seu patrimônio, recebendo aporte de investidores – para o fundo Havengate entre janeiro e setembro de 2025, totalizando 12,333 milhões de dólares. Em setembro de 2025, essa quantia equivalia a R$ 62,8 milhões.
Os valores foram pedidos a Vorcaro diretamente por Flávio Bolsonaro.
A delação premiada é um instrumento utilizado em investigações criminais por meio do qual o investigado se dispõe a cooperar com as investigações, podendo receber em troca alguns benefícios concedidos pelo Estado.
Nesta quarta-feira também foi firmada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) a colaboração de João Carlos Mansur, dono da gestora Reag Investimentos, no âmbito das investigações sobre um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master.
rc/md (ots)Caminho Político
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