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Lula manda recados aos EUA e Trump em discurso na ONU

Publicado em 22/09/2026 13:54
Lula manda recados aos EUA e Trump em discurso na ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a tribuna da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22/09) para denunciar "ingerências externas", num discurso recheado de recados indiretos aos EUA de Donald Trump. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse.
"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos", disse Lula, após mencionar que na América Latina e Caribe, "a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável".
Na sequência, Lula mencionou que em menos de duas semanas o Brasil irá às urnas para a nova eleição presidencial. Em outro recado velado aos EUA, Lula disse que “teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, no que pareceu uma referência ao discurso do governo dos EUA, que usou acusações de supostas violações da liberdade de expressão no Brasil para justificar a imposição de sanções contra membros do Judiciário.
Em outro recado, aparentemente direcionado à proximidade entre a Casa Branca e seus aliados bolsonaristas no Brasil, Lula disse que "sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país".
"Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular", prosseguiu o presidente.
"A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém..! Ninguém nos afastará desse caminho."
Tarifas e tensão
Tal como ocorreu em 2025, a fala de Lula na ONU ocorre em um momento particularmente delicado para a diplomacia brasileira. A viagem de Lula a Nova York ocorre após a Casa Branca sob Donald Trump impor um novo tarifaço punitivo a exportações brasileiras.
Lula fez duas referências indiretas às tarifas dos EUA, que também atingem países como o Canadá e membros da União Europeia, entre outros.
"Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas. (...) Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações", disse Lula.
A delegação dos Estados Unidos presente na Assembleia não aplaudiu, em momento algum, o discurso de Lula, em contraste com outros países.
Esta foi a 10ª participação de Lula na Assembleia Geral da ONU. Nos seus dois primeiros mandatos (2003-2010), Lula discursou seis vezes no encontro. No terceiro mandato, participou em todos os eventos entre 2023 e 2026.
Lula discursou após a presidente da Assembleia Geral, o bangladeche Khalilur Rahman, e o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
Historicamente, cabe ao Brasil abrir os discursos na sessão plenária da Assembleia Geral. Na sequência, o próximo a discursar foi o ocupante da Presidência dos EUA, no caso, Donald Trump.
Mais recados aos EUA
Em outros momentos do discurso, Lula ainda fez referências críticas indiretas à postura dos EUA em temas como a guerra do Irã e a intervenção na Venezuela.
"Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio", disse Lula, numa referência a uma das ameaças feitas por Donald Trump ao Irã durante o conflito com o país no primeiro semestre.
"O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos”, disse Lula.
O presidente brasileiro ainda disse brevemente que “o povo venezuelano merece definir o próprio destino” e criticou o cerco dos EUA a Cuba.
"Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais."
Combate ao crime
Lula só fez uma referência nominal aos Estados Unidos em seu discurso, quando mencionou o combate ao crime organizado. O tema também é delicado no contexto das relações entre EUA e Brasil. A Casa Branca reiteradamente tem usado o discurso de combate ao crime para ampliar ações militares na América Latina e críticos veem a ofensiva como uma estratégia para intervenções com objetivo político.
"O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. (...) Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo", disse Lula.
"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior", prosseguiu Lula, que em seguida listou iniciativas do seu governo para o combate ao crime.
Críticas à ONU e cobrança de reforma
No início do seu discurso, Lula abordou um tema habitual da diplomacia brasileira: a cobrança por reforma de organismos internacionais, especialmente o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que também é defendida por países como Alemanha e Japão.
“A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena", disse Lula.
“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel."
"Genocídio praticado pelo governo Netanyahu"
O presidente brasileiro também direcionou críticas explícitas a Israel pela guerra em Gaza, mas também condenou o terrorismo do grupo palestino Hamas, cujas ações desencadearam o atual conflito.
"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", disse Lula.
Sob Lula e o governo do premiê Benjamin Netanyahu, as relações entre Brasil e Israel se deterioraram. Em 2024, o governo Lula retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv. Em 2025, foi a vez de o governo do israelense Benjamin Netanyahu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil. Israel também segue sem embaixador no Brasil. 
O líder brasileiro ainda criticou o cerco imposto ao governo Trump ao Tribunal Penal Internacional (TPI), que vem sendo alvo de sanções por parte dos EUA e uma campanha de esvaziamento promovida pelos americanos.
“Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes”, disse Lula.
Lula ainda defendeu a relatora especial das Nações Unidas sobre os territórios palestinos ocupados, após ela ter sido alvo de sanções dos Estados Unidos por causa de relatórios críticos a Israel.
"A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança."
"Trump age como um imperador"
Na segunda-feira, após desembarcar em Nova York, Lula já havia direcionado críticas à política comercial dos EUA. Em entrevista à rede CNN, ele disse que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, "age como um imperador" ao adotar práticas comerciais unilaterais. Lula já havia feito uma declaração semelhante em abril em entrevista a uma revista alemã.
"O comportamento do presidente Trump tem um viés muito forte em favor do unilateralismo", disse Lula. "Isso é muito perigoso."
Lula ainda disse que essa prática favorece uma relação de "quem é mais forte" e "quem tem mais armas" entre as nações. "O comércio tem que ser uma coisa equilibrada", defendeu Lula.
Ainda em Nova York, Lula se reuniu com nomes da esquerda dos EUA, entre eles o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador Bernie Sanders.
Assessoria/Jean-Philip Struck/Caminho Político
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