Estupro coletivo em universidade renomada mobiliza EUA
Estudante acusa sete membros de fraternidade estudantil de agressão sexual. Depois de pressão pública e manifestação de artistas, promotoria de Nova York volta a investigar o caso. Um suposto estupro coletivo ocorrido há dois anos em uma das mais renomadas universidades dos Estados Unidos tem mobilizado artistas e outras figuras públicas, que pedem por responsabilização dos culpados e questionam a omissão da universidade e das autoridades.
O caso voltou a chamar a atenção após a suposta vítima, identificada como Jane Doe para proteger sua identidade, apresentar uma ação judicial em 16 de setembro. Na queixa, ela afirma ter sido brutalmente agredida sexualmente em 2024 por sete membros de uma fraternidade estudantil da Universidade Cornell, em Ithaca, no estado de Nova York.
Em seu relato, ela diz que estava inconsciente durante o crime, após ser forçada a consumir cetamina, fumar maconha e ingerir álcool na sede da fraternidade, chamada Chi Phi.Segundo ela, a universidade falhou em protegê-la. Cornell realizou uma investigação interna após o incidente, mas ninguém foi acusado criminalmente.
Além da universidade, a jovem processa os homens, a fraternidade Chi Phi, um bar de Ithaca e outros envolvidos, pedindo indenizações cujo valor não foi divulgado.
Matthew Van Houten, promotor do estado de Nova York, reabriu a investigação sobre as alegações. Ele disse em comunicado que seu gabinete considera apresentar acusações criminais relacionadas ao caso, embora as alegações da ação cível sejam "dramaticamente diferentes" do depoimento prestado pela mulher à polícia há dois anos. Nesse relato às autoridades, ela não afirmou ter sido drogada sem seu conhecimento nem que não consentiu em participar de atos sexuais.Pressão pública
Desde que a ação foi protocolada, o caso gerou ampla repercussão nas redes sociais. Alguns criticaram a Universidade Cornell e o Ministério Público local, enquanto outros colocaram as acusações em dúvida.
Toby Morton, roteirista de vários episódios da série de comédia animada South Park, lançou o site TheCornell7.org para fazer pressão por investigações e denunciar os supostos abusadores. O site identifica os sete homens acusados, com dados pessoais e fotos.
"Recebi mensagens me lembrando de que não sou jornalista, sou 'apenas um satirista'", escreveu Morton em uma publicação no Instagram em 27 de setembro sobre a criação do site. "Isso é verdade, mas me torna mais perigoso", acrescentou, afirmando que não tem "ninguém para dizer que fui longe demais".
Busca por justiça
A fraternidade Chi Phi em Cornell foi proibida de atuar no campus após o suposto crime. A mulher que acusa os estudantes de agressão sexual abandonou a unversidade, segundo seu advogado.
Uma das alegações mais chocantes da ação judicial é a de que uma mensagem foi enviada a um grupo da fraternidade no Snapchat por volta de 1h42, convidando membros a irem ao quarto abusar de Jane Doe, sob efeito de drogas e álcool. A ação afirma que mais homens entraram no quarto e que a agressão continuou por várias horas, até ela perder a consciência.
"Havia tantas pessoas que poderiam ter impedido aquilo e não impediram. Nunca vi nada parecido", disse Thomas Giuffra, advogado de Jane Doe, à rede de TV americana CBS. Ele ressaltou que dois dos sete integrantes da fraternidade acusados foram expulsos, enquanto os demais receberam medidas disciplinares mais brandas. "Nenhum desses caras foi preso."
Políticos e atores se manifestam
Muitas pessoas, de políticos americanos a atores de Hollywood, se manifestaram sobre o caso nos últimos dias. A deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez, democrata de Nova York, condenou o que descreveu como uma "cultura do estupro" protegida por instituições de elite.
"Quando li o que aconteceu em Cornell, aqueles homens publicaram mensagens em um grupo de conversa. Isso significa que aquilo era normal para eles. Significa que era aceitável para eles. Isso é uma cultura, e o que precisamos fazer é entender que não podemos mais proteger esses espaços", afirmou ela no domingo, durante um fórum realizado próximo ao campus da universidade.
A atriz britânica Florence Pugh classificou as acusações como "horríveis" nas redes sociais e expressou apoio à estudante envolvida. Pugh, que atualmente promove sua nova série da Netflix, A Leste do Éden, publicou uma longa declaração no Instagram afirmando que "faculdades, escolas e universidades falham repetidamente com as mulheres ao redor do mundo. Vocês formam homens que aprendem, repetidas vezes, que podem causar danos extremos e que não sofrerão consequências por isso".
"Aqueles que protegem homens que estupram e destroem vidas e lhes impõem punições leves deveriam ser punidos e submetidos a escrutínio rigoroso. Por que vocês estão protegendo alguém com tanto empenho?", escreveu.
O ator americano Josh Gad, mais conhecido por dar voz ao personagem Olaf nos filmes Frozen, da Disney, também comentou o caso, criticando o que descreveu como consequências disciplinares insuficientes para os estudantes acusados de agressão sexual. Em uma publicação no Instagram, Gad afirmou que a violência sexual não deve ser tratada como um erro nem enfrentada apenas com medidas disciplinares limitadas por parte de uma universidade. Ele argumentou que a conduta descrita nas acusações "destruiu uma vida" e defendeu maior responsabilização dos envolvidos.
Assessoria/Sarah Hucal/Caminho Político
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