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Estudo questiona necessidade de jejum antes de exames de sangue

Publicado em 09/10/2026 15:14
Estudo questiona necessidade de jejum antes de exames de sangue

Ficar de oito a 12 horas sem comer antes de fazer um exame de sangue pode ser desnecessário na maioria dos casos. É o que aponta um estudo publicado em setembro na revista científica JAMA Internal Medicine, que analisou quase 10 milhões de resultados laboratoriais e identificou que apenas uma pequena parcela dos exames sofre alterações significativas de acordo com o tempo de jejum.
A pesquisa comparou resultados de pacientes submetidos a diferentes períodos sem alimentação e constatou que exames comuns, como hemograma, avaliação da função renal e colesterol, permanecem estáveis mesmo quando o jejum é inferior a oito horas. Os pesquisadores também observaram que ficar mais de 12 horas sem comer não oferece vantagens em relação ao intervalo tradicional de oito a 12 horas.
Segundo o diretor técnico do Grupo Sabin, Rafael Jácomo, os resultados reforçam uma mudança que os laboratórios brasileiros já defendem há alguns anos. "O estudo demonstra que a prática histórica de exigir jejum universal de oito a 12 horas para todos os exames é desnecessária para a maioria dos testes", explica ao Correio.
Entre os exames que não apresentaram alterações clinicamente relevantes estão o hemograma completo, os testes de função renal, como ureia e creatinina, o coagulograma e algumas enzimas hepáticas. As dosagens de colesterol total e HDL também se mantiveram estáveis, independentemente do tempo de jejum.
Isso não significa, porém, que a recomendação possa ser abandonada em todos os casos. A pesquisa identificou alterações importantes em exames de glicose, triglicerídeos, gama-glutamiltransferase (GGT), lipase e lactato, que podem sofrer influência da alimentação.
No caso da glicose, por exemplo, a ingestão de carboidratos eleva os níveis de açúcar no sangue. O estudo apontou uma redução de aproximadamente 4,3 mg/dL a cada hora adicional de jejum nas primeiras horas. Já os triglicerídeos podem aumentar após o consumo de gorduras, com variações que chegaram a 20,1% em períodos inferiores a oito horas.
Risco de diagnóstico equivocado
Embora a alimentação não comprometa a maioria dos exames de rotina, ignorar o jejum quando ele é necessário pode prejudicar a interpretação dos resultados e até levar a diagnósticos equivocados.
"Em testes como a glicemia de jejum, a coleta sem o repouso calórico adequado eleva artificialmente os valores, podendo gerar falso diagnóstico de pré-diabetes ou diabetes", alerta Jácomo.
O mesmo cuidado vale para os triglicerídeos. Dependendo da finalidade do exame, a alimentação antes da coleta pode elevar os valores e interferir na avaliação de alterações nos níveis de gordura no sangue. Por isso, o especialista destaca que o médico deve considerar o que o paciente comeu antes da coleta, especialmente quando os resultados estiverem elevados.
A discussão sobre a necessidade de jejum não é recente. Em 2016, cinco sociedades científicas brasileiras, entre elas a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, publicaram um consenso que dispensou a exigência de 12 horas de jejum para a avaliação do perfil lipídico, utilizado para medir colesterol e triglicerídeos.
Para Jácomo, a nova pesquisa fortalece essas recomendações, mas não elimina a necessidade de avaliar cada situação individualmente.
Afinal, é preciso fazer jejum?
Na prática, a orientação continua sendo seguir as recomendações do médico e do laboratório antes da coleta. Mesmo que a maioria dos exames solicitados não exija jejum, a presença de um único teste que dependa desse preparo pode tornar a restrição alimentar necessária.
"A desnecessidade de jejum para a maioria dos exames não determina que a coleta de um conjunto de exames pode ser feita sem jejum. Se no conjunto de testes solicitados houver glicemia, por exemplo, o jejum deverá ser respeitado", orienta o especialista.
Assim, antes de passar horas sem comer, o paciente deve verificar quais exames foram solicitados e se há necessidade de preparo específico. A recomendação evita restrições desnecessárias sem comprometer a confiabilidade dos resultados.
Assessoria/Nathallie Lopes/Caminho Político
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