ELEIÇÕES 2026 E OS DESAFIOS AMBIENTAIS DE MATO GROSSO:
Em sua recente viagem apostólica ao Continente Africano, entre 18 e 21 de abril, em Luanda (Angola), o Papa Leão XIV assim se expressou:
“É fundamental que, na construção de um desenvolvimento que um crescimento econômico com justiça social, com sustentabilidade e com foco na dignidade de cada pessoa“. (VATICANO, 2026).
Em minha opinião, esta exortação também se dirige a nós no Brasil inteiro e, principalmente, no que está acontecendo em Mato Grosso há décadas, em que o processo de crescimento econômico do estado tem contribuído para o enriquecimento de uns poucos, uma minoria e para a exclusão, a fome, a miséria, a violência e as injustiças da grande maioria da população.
É sobre isto que precisamos e devemos refletir de forma mais profunda e crítica, principalmente neste e em outros períodos eleitorais.
Em reunião – café da manhã – realizada no último dia 08 deste mês de agosto, quando estiveram presentes 25 pessoas, representando diversos setores, segmentos e entidades, dialogamos sobre a necessidade de os candidatos que concorrem aos cargos de deputados federais e estaduais, a senadores e a governador de Mato Grosso incluírem em suas propostas de ação política futura as questões, problemas e desafios ambientais existentes em nosso Estado.
Diante da crise climática e de suas consequências, não podemos continuar aceitando a omissão de nossos atuais e futuros governantes, tendo em vista que a própria Constituição Federal, em seu artigo 225, estabelece que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” (BRASIL, 1988).
Esses desafios afetam todos os três biomas existentes em Mato Grosso e os centros urbanos do estado.
Os números comprovam a gravidade da situação, não se trata apenas de opinião, vejamos:
1) O Pantanal está secando e queimando e vai virar deserto. De acordo com estudos científicos com base no monitoramento do MapBiomas, o Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nas últimas quatro décadas, entre 1985 e 2025. A área alagada despencou de 19 mil km² para cerca de 3,8 mil km². No mesmo período, mais de 60% de seu território foi atingido por incêndios, cerca de 9 milhões de hectares acumulados, e perdeu 1,7 milhão de hectares de vegetação nativa por desmatamento (MAPBIOMAS, 2025)
2). Mato Grosso está perdendo sua cobertura vegetal e respirando fumaça: Entre 1985 e 2025, o desmatamento e as queimadas em Mato Grosso reduziram a cobertura vegetal nativa de 90% para 61% e acumularam 45,1 milhões de hectares queimados.
Essa degradação gerou muita poluição do ar por material particulado fino (PM2,5), disparando internações por problemas respiratórios e cardiovasculares e gerando custos milionários ao SUS (MAPBIOMAS, 2025; INPE, 2025).
Cerca de 70% das internações por problemas respiratórios em períodos críticos nos estados da Amazônia Legal e Cerrado — incluindo Mato Grosso — apresentam forte correlação com a poluição por fumaça de queimadas (FIOCRUZ, 2024).
3). A poluição do ar mata mais que a violência contra as mulheres. Mato Grosso registra uma média anual de aproximadamente 1.414 mortes associadas à poluição do ar. Dados do Ministério da Saúde indicam que houve um total de quase 20 mil óbitos (19.804) atribuídos à poluição atmosférica no estado em um período de 14 anos (BRASIL, 2024).
Para se ter a dimensão desta tragédia, Mato Grosso registra uma média de 50 a 60 mortes de mulheres por feminicídio a cada ano. Em 2025, foram 54 vítimas oficiais, mantendo o estado como campeão nacional de feminicídios, proporcionalmente (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2025). Ou seja, o número de pessoas que morrem por ano devido à poluição do ar (1.414) representa 24 vezes mais do que o número de feminicídios que ocorram por ano em Mato Grosso.
Mesmo sendo o Estado campeão nacional de feminicídio, a poluição do ar é mais letal do que a sanha dos assassinos de mulheres.
Sempre é bom relembrarmos o que disse/escreveu o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’: “tudo está interligado, nesta Casa Comum“ e “o grito da terra é também o grito dos pobres e excluídos“ (FRANCISCO, 2015).
Esses desafios ambientais afetam todos os três Biomas existentes em Mato Grosso: Pantanal; Cerrado e Amazônia Mato-grossense, bem como a grande maioria dos Centros Urbanos, principalmente o maior aglomerado urbano de nosso Estado (Cuiabá e Várzea Grande) e Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, onde residem aproximadamente 30% da população total do Estado.
Diante de tudo isso, foi definido, com aprovação de todos os presentes, que deveríamos realizar um evento presencial para aprofundarmos e ampliarmos este diálogo e, ao mesmo tempo, convidar pessoas com conhecimento técnico e prática nesta área, para que possamos aprofundar este nosso pleito, a ser encaminhado tanto aos candidatos, muitos dos quais já detém mandatos, bem como aos partidos políticos.
Para tanto a Pastoral da Ecologia Integral da Arquidiocese de Cuiabá, a Articulação da referida pastoral para Mato Grosso e Região Centro Oeste, em parceria com a Associação Cuiabá mais Verde estão ultimando as providências para a realização de um evento presencial, a ser realizado em 22 de Setembro próximo em Cuiabá.
`A medida que tais providências e articulações forem se desenvolvendo iremos compartilhando informações para que os participantes do evento possam contribuir na elaboração de um documento a ser endereçado aos Candidatos e Partidos Políticos.
No decorrer deste tempo que antecede o Evento “Eleições 2026 e os desafios ambientais de Mato Grosso“, todas as pessoas que assim desejarem, podem contribuir com análises, identificação dos problemas e desafios socioambientais, bem como sugestões de ações a serem incluídas em políticas públicas nesta área.
Todos reconhecemos que Mato Grosso passa por um processo de crescimento econômico pujante ostentando os maiores índices de aumento da produção e exportações, principalmente no setor agropecuário em relação a todos os demais estados brasileiros.
No entanto, este processo tem estimulado e promovido uma enorme concentração de renda, riqueza, propriedades, oportunidades, bem como contribuído, também, para um passivo ambiental impagável, representado pela degradação ambiental, decorrente do desmatamento, das queimadas, da mineração e garimpos ilegais, da grilagem de terras públicas e privadas, pela invasão de territórios indígenas, por conflitos fundiários, uso abusivo de mercúrio, agrotóxicos, destruição das nascentes, da biodiversidade animal e vegetal, alteração do regime das chuvas, poluição das águas, dos solos e do ar, afetando, sobremaneira a saúde das pessoas, principalmente de trabalhadores rurais, das crianças e das pessoas idosas.
Em relação aos desafios ambientais urbanos não podemos esquecer que, principalmente em Cuiabá e Várzea Grande a expansão urbana tem ocorrido de forma totalmente caótica, diante da omissão e morosidade dos poderes públicos, gerando “bairros” sem infraestrutura, como falta de saneamento básico, gestão incorreta dos resíduos sólidos/lixo, falta de arborização urbana, conflitos fundiários urbanos, violência aberta, fortalecimento da presença do crime organizado, poluição do ar, dos córregos e dos rios, afetando diretamente o Pantanal, que corre sério risco de secar dentro de poucas décadas, transformando-se em um bioma totalmente improdutivo.
É neste sentido que urge alterar este modelo de crescimento econômico irracional, predatório, desumano e buscar um novo rumo para que nosso Estado possa se desenvolver de forma sustentável, integrado, integral, com justiça social, equidade e com respeito `a dignidade da pessoas e `das atuais e futuras gerações.
Este é o foco de nossas preocupações e de nossas ações como cidadãos, cidadãs, contribuintes, eleitores e eleitoras, fazendo jus ao princípio constitucional de que “todo o poder emana do povo…”.
Isto tem um nome: Cidadania ativa, consciente e participativa, através do voto livre, secreto e democrático, em defesa da soberania popular, da soberania nacional e integridade de nosso território nacional.
Juacy da Silva – Professor fundador, titular e aposentado da UFMT, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste.
E-mail profjuacy@yahoo.com.br
WhatsApp 65 9 9272 0052
Instagram @profjuacy
Referências:
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, 1988.
BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Dados sobre mortalidade atribuída à poluição atmosférica. Brasília, 2024.
FIOCRUZ. Fundação Oswaldo Cruz. Impactos das queimadas na saúde respiratória na Amazônia Legal e Cerrado. Rio de Janeiro, 2024.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo, 2025.
FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si’. Vaticano, 2015.
INPE. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Programa Queimadas. São José dos Campos, 2025.
MAPBIOMAS. Relatório Anual do Desmatamento e Superfície de Água no Brasil – Coleção 9 (1985-2025). São Paulo, 2025.
VATICANO. Viagem Apostólica do Papa Leão XIV a Angola – Discurso em Luanda. 18-21 abr. 2026
Assessoria/Caminho Político
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