DESAFIOS E PERSPECTIVAS EM UMA IGREJA SINODAL, SAMARITANA E PROFÉTICA
Este artigo reflete sobre um dos maiores desafios que a Igreja enfrenta atualmente que é a importância da formação de leigos e leigas para atuação nas pastorais sociais, à luz do Concílio Vaticano II, do Documento de Santarém (1972-2022), do magistério do Papa Francisco e do Papa Leão XIV e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026-2032, Doc. 114 CNBB).
Argumenta-se que a eficácia, eficiência e efetividade das pastorais sociais dependem da superação do voluntarismo e do clericalismo por meio de planejamento estratégico e formação continuada.
Apresenta-se o histórico das pastorais sociais no Brasil a partir da década de 1970 e seus desafios contemporâneos, como a escassez de recursos e quadros técnicos. Como proposta concreta, defende-se a implementação de cursos de curta e média duração (12h a 60h) voltados à elaboração, gestão e captação de recursos para projetos sociotransformadores, em perspectiva ecumênica e sinodal, com opção preferencial pelos pobres e defesa da ecologia integral. Palavras-chave: Leigos. Pastorais Sociais. Formação. Sinodalidade. Doutrina Social da Igreja.
ABSTRACT
This article reflects on the importance of training laypeople for work in social ministries, in light of Vatican II, the Santarém Document (1972-2022), the magisterium of Pope Francis and Pope Leo XIV, and the General Guidelines for the Evangelizing Action of the Church in Brazil (DGAE 2026-2032).
It argues that the effectiveness of social ministries depends on overcoming voluntarism and clericalism through strategic planning and continuing education.Keywords: Laypeople. Social Ministries. Training. Synodality. Catholic Social Teaching.
1. INTRODUÇÃO
“Mas os leigos são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e ativa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra“ (Lumen Gentium, 33).
Esta afirmação conciliar, passados quase 60 anos, mantém sua atualidade e urgência.
Ao celebrarmos os 50 anos do Encontro de Santarém (1972-2022) e ao iniciarmos a vivência das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE 2026-2032), torna-se imprescindível refletir sobre o papel do laicato nas pastorais sociais.
Este artigo tem como objetivo analisar os fundamentos teológicos da formação laical e propor caminhos concretos para qualificar a ação sociotransformadora da Igreja no Brasil, em fidelidade à sua identidade sinodal, samaritana e profética.1.
2.FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA E ECLESIAL: DO VATICANO II A SANTARÉM
A Constituição Dogmática Lumen Gentium, promulgada por Paulo VI em 21 de novembro de 1964, consagrou o protagonismo dos leigos como “testemunha e instrumento vivo da missão da própria Igreja” (LG, 33, cf. Ef 4,7).
Este ensinamento foi retomado com vigor no IV Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Santarém, em 2022, que celebrou os 50 anos do histórico encontro de 1972.
O Documento de Santarém afirma: É preciso investir mais recursos na formação dos cristãos leigos e leigas nos diversos campos da teologia, bíblia, pastoral, espiritualidade e na Doutrina Social da Igreja.
O encontro motivou o fortalecimento na formação de leigos e de leigas, para que sejam missionários e missionárias respondendo às exigências da missão na Amazônia (CNBB, 2022, n.50).2. O MAGISTÉRIO RECENTE E AS DGAE 2026-2032
O pensamento do Papa Francisco sobre a formação do laicato está alicerçado na eclesiologia do povo de Deus e na opção preferencial pelos pobres. Para Francisco, os leigos não são meros colaboradores da hierarquia eclesiástica, mas sujeitos ativos e protagonistas da evangelização e da transformação social.
Na mesma linha, o Papa Leão XIV tem insistido que os leigos são os protagonistas centrais na missão transformadora da Igreja, cujo engajamento nas pastorais sociais exige sólida formação fundamentada no sacerdócio batismal, na Doutrina Social da Igreja e nos direitos humanos.
Leão XIV defende que a formação laical não deve ser doutrinação passiva, mas cultivo do pensamento crítico e da corresponsabilidade.
Os bispos do Brasil, na Assembleia Geral da CNBB em Aparecida, em abril de 2025, ao aprovarem as DGAE 2026-2032 (Doc. 114), enfatizaram:
“A missão própria dos cristãos leigos e leigas os envia a atuar de modo transformador nos muitos espaços onde a vida acontece: na família, no trabalho, na economia, na cultura, na educação, na política, nas artes e ciências, na comunicação e no cuidado com a Casa Comum“ (DGAE, n.72, cf. Documento de Aparecida, 174).
3. PLANEJAMENTO E AÇÃO: SUPERANDO O VOLUNTARISMO
No contexto das pastorais sociais, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que ação sem planejamento é mero voluntarismo e não conduz a resultados sociotransformadores. De outro lado planejamento sem ação é mero gasto de energias mentais e torna-se estéril.
Só a ação bem planejada, com visão de futuro, de longo prazo, guiada por objetivos claros, podem transformar as estruturas que geram pobreza, fome, miséria, violência, exclusão política, social e econômica, além da degradação da ecologia integral, nossa Casa Comum, locus da ação evangelizadora da Igreja.
É importante mencionarmos o que disse, recentemente o Papa Leão XIV:
“Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que não pode esperar, e não apenas por uma razão pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá leva-la a novas crises” Dilexi Te, (Sobre o Amor para com os Pobres), 94, 2025.
4. OS DESAFIOS DAS PASTORAIS NA DIMENSÃO SOCIOTRANSFORMADORA
Como resposta à crise política, social e econômica e à efervescência do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil estruturou as pastorais sociais na década de 1970. Esta atuação representou a transição da caridade assistencial tradicional para a defesa dos direitos humanos.
Cabe aqui também enfatizar os níveis da caridade: assistencial, promocional e libertadora, cabendo a esta última indicar os caminhos para uma ação que transforma as estruturas que geram a pobreza, inclusive “a economia que mata” ou “economia da morte” da qual tanto falou o Papa Francisco.
Datam desta época: CIMI – Conselho Indigenista Missionário (23 de abril de 1972), Pastoral Carcerária (1972), CPT – Comissão Pastoral da Terra (junho de 1975), Pastoral da Moradia e Favela e Pastoral do Menor (1977), Pastoral da Criança (1983), Pastoral do Meio Ambiente, hoje Pastoral da Ecologia Integral (1986), Pastoral Afro-Brasileira (1988).
Contudo, as pastorais enfrentam desafios históricos: resistência das comunidades, precariedade de recursos humanos, técnicos e financeiros, e, sobretudo, o clericalismo.
Como afirmou o Papa Francisco:
“O clericalismo, que não é só dos clérigos, é um comportamento que diz respeito a todos nós: o clericalismo é uma perversão da Igreja” (Discurso no Circo Máximo, Roma, 11 de agosto de 2018). Soma-se a isso a falta de quadros técnicos para captação de recursos e elaboração de projetos, o que gera ações fragmentadas e descontinuadas.
5. PROPOSTA: UMA ESCOLA DE FORMAÇÃO PARA AS PASTORAIS SOCIAIS
Para superar essas dificuldades, propomos um itinerário formativo modular, de curta e média duração (12h a 60h), destinado a agentes e coordenadores de todas as pastorais sociais, movimentos e organismos da Igreja, cujas ações estejam voltadas para os pobres e excluídos, com os seguintes eixos: a) Fundamentos bíblico-teológicos, Doutrina Social da Igreja e Direitos Humanos; b) Planejamento estratégico e elaboração de projetos (Marco Lógico); c) Captação de recursos, parcerias e prestação de contas; d) Gestão, monitoramento e avaliação; e) Espiritualidade encarnada, ecologia integral e cidadania.
É fundamental desenvolver o trabalho em rede e parcerias entre pastorais, organismos e movimentos, com possibilidades ecumênicas, inter-religiosas e com a sociedade civil – ONGs, clubes de serviço, sindicatos e coletivos sociais.
CONCLUSÃO
Sem formação, as ações das pastorais sociais perdem muito de sua eficácia, eficiência e efetividade, reduzem e distanciam a presença da Igreja junto aos pobres e excluídos.
Investir na formação de leigos e leigas não é gasto, mas investimento na credibilidade e na fidelidade da Igreja ao Evangelho de Jesus Libertador.
Uma Igreja sinodal é aquela que caminha junto; samaritana, porque cuida com proximidade; e profética, porque denuncia as mazelas e injustiças e anunciadas boas novas de um novo mundo possível, através da Cultura da Paz e da Civilização do Amor, conforme nos indica e sugere Leão XIV na recente Encíclica Magnifica Humanitas Capítulo V.
Somente com leigos e leigas bem formados, com consciência crítica, competência técnica, coragem e uma espiritualidade encarnada, poderemos vivenciar, na prática, a opção preferencial pelos pobres, não de forma assistencialista ou paternalista, mas como caminho de libertação integral.
Eis um dos grandes desafios que as DGAE 2026-2032 nos apresentam como caminho a ser seguido pelos próximos seis anos pela Igreja no Brasil.
REFERÊNCIAS
CNBB. Documento de Santarém 50 anos. Gratidão e Profecia. IV Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal. Brasília: Edições CNBB, 2022.CNBB.
Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032. Doc. 114. Brasília: Edições CNBB, 2025.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. Roma, 21 nov. 1964.
FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Roma, 2013.
FRANCISCO, Papa. Discurso aos jovens italianos no Circo Máximo. Roma, 11 ago. 2018.
Leão XIV, Papa Dilexi Te, Exortação Apostólica, Roma 2025
Leão XIV, Papa Magnifica Humanitas, Encíclica, Roma 2026
Juacy da Silva, professor titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste.