Barro e tempo: a cerâmica como pausa para a rotina
Em uma época dominada por telas, velocidade e produção industrial em massa, o ato de sujar as mãos na argila tem se tornado um refúgio cada vez mais procurado. Longe de ser apenas um passatempo casual, a cerâmica autoral vive um momento de forte valorização. Isso, sobretudo, pensando na importância do trabalho manual e da busca por uma forma de reinventar a própria vida nessa pressa contemporânea. Entre desafios e encantos,
Para muitos profissionais, a cerâmica não foi a primeira escolha de carreira, mas surgiu como uma busca por liberdade criativa e respiro diante de mercados corporativos engessados. É o caso do designer Felipe Laraia, 40 anos, fundador da marca Seu Barromeu (@seubarromeu). Formado em design de interiores, ele trabalhava com mobiliário corporativo, mas sentia que sua capacidade criativa era limitada pelas diretrizes empresariais.
Mais do que isso, queria a chance de desenvolver as próprias ideias sozinho. "Eu sou designer de formação, aí eu trabalhava com mobiliário, mas fiquei insatisfeito com o mercado, e eu não tinha tanta autonomia de exercer a minha criatividade dentro da profissão, porque era muito fechado no que a empresa queria", conta Felipe.
Em 2014, ele fez um curso básico no Museu Vivo da Memória Candanga e enxergou ali a oportunidade de aplicar o design de forma autoral, para entrar de uma vez por todas nesse universo. A transição definitiva, contudo, demandou planejamento, paciência e persistência. Em 2018, tomou a tão aguardada decisão, passando um ano inteiro estudando e testando técnicas por conta própria até lançar suas peças comercialmente. O início, certamente, foi difícil, especialmente pensando nos custos que demandam os materiais. Mesmo assim, não se arrepende.
"A cerâmica tem um custo elevado de equipamentos, por exemplo, para queima. Mas, de ferramentas, você não precisa de muita coisa. Às vezes, só a mão, você já é sua maior ferramenta de trabalho. Eu não trabalho com aquele torno de oleiro do filme Ghost. O meu trabalho é manual. O meu maior investimento mesmo foi o forno. Na época, já tinha muita gente fazendo cerâmica em Brasília, mas não tinha o boom que tem hoje, então não tinha tantos fornos acessíveis", explica Felipe Laraia.
O resultado do investimento veio logo na primeira feira, em 2019, quando vendeu 80% do seu acervo nas duas primeiras horas. Hoje, Felipe trabalha focado em utilitários de mesa, como copos, xícaras e pratos, e desenvolve suas próprias fórmulas de porcelana e esmaltes. Morando na Asa Norte, o ateliê para os projetos fica em um refúgio ao redor da natureza, no Lago Oeste.
A união dos elementos
Caminho semelhante trilhou Henrique Ervilha Filippelli, 45, fundador do Ateliê Soma Cerâmica (@somaceramica), localizado na 216 Norte. O encontro com a cerâmica aconteceu por acaso, enquanto procurava um espaço de modelo vivo para exercitar o desenho. "Entrei na cerâmica quando estava procurando um modelo vivo para praticar. Acabei encontrando, por acaso, o ateliê do Paulo de Paula, que, hoje, é um grande amigo e foi quem me apresentou às possibilidades da cerâmica. Até então, não sabia que a escultura, que era um universo que eu já conhecia, poderia ser queimada e se transformar em uma peça de cerâmica", relembra Henrique.
Contudo, dominar a cerâmica exige respeitar rigorosamente a natureza e a física dos materiais. O ofício depende do equilíbrio harmônico entre quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo, em um processo rigoroso que não aceita atropelos. A terra fornece a matéria-prima base por meio de massas tratadas e enriquecidas para adquirir resistência, cores específicas e suporte às altas temperaturas. O fogo entra como elemento que consolida a transformação, pois sem a queima planejada e controlada pelo ceramista, a argila jamais se converte em cerâmica.
Essa dependência dos processos químicos e físicos impõe um ritmo próprio de trabalho e exige paciência. Henrique detalha que o percurso da massa crua à peça finalizada envolve preparação, modelagem, acabamento, secagem, primeira queima em biscoito, esmaltação e segunda queima, exigindo, em média, um prazo de 30 dias para a entrega confortavelmente realizada.
"O que eu tento passar para as pessoas que estão no ateliê é que a relação com o tempo e com a paciência nasce do quanto você gosta do que está fazendo. Se você gosta, entrega-se e não fica esperando apenas pelo resultado final, passa a se concentrar no processo: naquele momento, naquela atividade, naquela ação. A partir daí, você perde um pouco a dimensão do tempo e deixa de precisar ter paciência", avalia Henrique Filippelli.
Para o ceramista, o trabalho manual é um atrativo justamente pelo fato de se estar em uma época tão voltada para a produção em massa e digital. "Quando estamos com as mãos sujas de massa, fica inviável mexer no computador ou tocar no celular. O próprio contato com a massa faz com que a gente se concentre na atividade e se desligue do mundo", completa Henrique.
Antídoto ao digital
Para a ceramista e professora Sara Adrian Costa (@sari.a09), 27 anos, o trabalho manual sempre esteve no centro de sua trajetória. Ela cursou design gráfico em busca de uma profissão rentável para o seu sonho de criança de viver da arte, mas percebeu que o fazer com as mãos era insubstituível. Há um ano, além de produzir, ela também passou a dar aula em diversos espaços.
O movimento no espaço reflete como o manuseio da argila tem servido como um antídoto direto ao excesso de telas e ao esgotamento provocado pelo cotidiano digital. Ao lidar com a massa, o ar e os pincéis, os praticantes são convidados a diminuir o ritmo e a concentrar a atenção, exclusivamente, no momento presente. "Temos aulas regulares de cerâmica, tanto de modelagem manual quanto de torno, além de experiências pontuais e workshops. Nas aulas, o aluno acompanha todo o processo de criação de uma peça, desde o contato com a argila e a modelagem até os acabamentos e a queima", completa.
Além disso, a Menta oferece a possibilidade de pintar as peças de cerâmica, uma etapa que permite explorar ainda mais a criatividade e personalizar cada trabalho com cores, formas e diferentes combinações. O espaço reúne desde pessoas que buscam momentos individuais de pausa e autoconhecimento até mães e filhas, amigos, casais e idosos em busca de rotinas ativas, criando um canal de troca e conexão entre diferentes gerações por meio da arte.
Para conhecer
Escola de Cerâmica Torno Cerâmico: situada na CLSW 103, é especializada no ensino e na prática do torno elétrico para iniciantes e avançados.
Escola de Escultura Paulo de Paula: localizada na Asa Norte, um dos espaços mais tradicionais da cidade para estudo de escultura em argila e modelagem natural.
Atelier Terra Bela: espaço focado no ensino de técnicas manuais (como placas e rolinhos) e torno elétrico, com acervo e foco na produção autoral.
Centro de Artes de Brasília: oferece turmas de cerâmica com foco em técnicas de acabamento, queima, modelagem e torno.


Assessoria/Eduardo Fernandes/Caminho Político
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