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Ucrânia busca rotas alternativas para salvar safra de grãos

Publicado em 20/08/2026 17:25
Ucrânia busca rotas alternativas para salvar safra de grãos

Ataques russos no Mar Negro afetam principal rota de exportação da Ucrânia, por onde passam até 90% das vendas ao exterior. Com ferrovias e rodovias incapazes de lidar com fluxo, agricultores consideram abandonar safras. Os ataques russos a navios civis no Mar Negro comprometeram o principal corredor de exportação agrícola da Ucrânia. Com os portos da região de Odessa, responsáveis por até 90% das vendas externas do setor, operando de forma limitada, Kiev tenta redirecionar o escoamento da produção por ferrovias, rodovias e vias fluviais, além de negociar uma nova rota comercial através da Moldávia.
Especialistas alertam, porém, que essas alternativas não são capazes de substituir o transporte marítimo. Para eles, o bloqueio atual representa uma ameaça ainda mais grave para a economia ucraniana do que a enfrentada em 2022, no início da invasão russa em larga escala.
Falta de capital preocupa produtores
A deterioração da segurança no Mar Negro já afeta significativamente o mercado interno da Ucrânia. Segundo Denys Martschuk, vice-presidente da associação Conselho Agrícola de Toda a Ucrânia, os agricultores já colheram mais de 28 milhões de toneladas de cereais e leguminosas. No entanto, grande parte dessa produção não pode ser comercializada.
Como consequência, cresce a falta de capital de giro necessário para concluir a colheita e financiar o plantio das culturas de inverno, que começa no final de agosto nas regiões do sul do país.
"Atualmente, mal conseguimos vender nossos produtos. Estamos armazenando a produção, quando há espaço disponível. Mas precisamos de dinheiro, sobretudo para a semeadura de outono", afirmou Martschuk à DW.
Segundo ele, a situação tende a piorar nos próximos meses, quando novas colheitas de cereais e oleaginosas chegarem ao mercado. Apenas a safra de milho deverá alcançar cerca de 33 milhões de toneladas este ano.
Ao mesmo tempo, o país pode enfrentar no outono europeu um déficit de até 10 milhões de toneladas em capacidade de armazenamento. O problema é particularmente grave nas regiões próximas à linha de frente, onde muitos silos foram destruídos pela guerra.Martschuk relata que alguns agricultores cogitam deixar o milho nos campos até a primavera seguinte para evitar os custos de secagem e armazenamento.
"A secagem exige muita eletricidade, que está muito cara. Não há dinheiro para isso. Como também faltam compradores e os preços são baixos, muitas vezes é mais barato deixar a produção no campo", explicou.
Exportações e preços em queda
Segundo Maksym Hopka, analista do Clube Ucraniano de Agronegócios, a Ucrânia exportou cerca de 3,7 milhões de toneladas de produtos agrícolas em julho, incluindo 2,7 milhões de toneladas de cereais. O volume representa uma queda de aproximadamente 25% em relação ao mês anterior. Para agosto, Hopka prevê uma nova redução, com as exportações de grãos podendo cair pela metade.
Paralelamente, os preços domésticos também sofrem forte pressão. O trigo destinado ao consumo humano registrou queda de 30% a 35%, enquanto os preços da cevada recuaram cerca de 30%.
Como parte significativa da produção não consegue chegar aos mercados internacionais, muitos produtores já não conseguem cobrir sequer os custos de produção. Algumas propriedades rurais operam com prejuízo.
O Ministério da Política Agrária e Alimentação da Ucrânia estima que as perdas anuais do setor devido à impossibilidade de comercializar produtos agrícolas possam chegar a 20,5 bilhões de dólares (cerca de R$107 bilhões).
Rotas alternativas enfrentam limitações
O governo ucraniano afirma estar trabalhando para ampliar as exportações por ferrovia, pelos portos do Danúbio e por rotas terrestres através de países vizinhos.
Entretanto, a seca reduziu a navegabilidade do rio Danúbio, limitando seu uso para exportações. Já as ferrovias enfrentam congestionamentos durante a época de colheita devido à elevada demanda europeia, enquanto o transporte rodoviário em larga escala é considerado caro.
Para o ministro da Agricultura, Taras Vysotskyi, a principal prioridade continua sendo a reabertura das rotas marítimas seguras para os portos da região de Odessa com apoio militar da Ucrânia e de seus aliados.
Segundo ele, não existe uma alternativa equivalente no médio prazo. Ferrovias e chamados "portos secos" poderiam apenas funcionar como soluções temporárias até a normalização da navegação no Mar Negro.
Situação mais difícil do que em 2022
O economista Oleh Nivievskyi, da Escola de Economia de Kiev, avalia que a Ucrânia dispõe hoje de menos possibilidades para compensar as perdas do comércio marítimo do que tinha no início da guerra.
Ele lembra que, em 2022, a União Europeia apoiou ativamente a criação dos chamados "corredores de solidariedade" para facilitar o transporte da produção ucraniana. Além disso, diversas restrições comerciais e tarifárias foram flexibilizadas.
Segundo Nivievskyi, o cenário atual é menos favorável. "No comércio com a União Europeia, voltamos praticamente ao regime anterior à guerra, com restrições e cotas tarifárias", afirmou à DW.
O especialista também cita problemas de infraestrutura. A ferrovia ucraniana dispõe atualmente de cerca de 30% menos trens do que antes da guerra. Além disso, os frequentes ataques russos à infraestrutura ferroviária exigem reparos constantes.
O transporte rodoviário também sofre com a escassez de caminhoneiros, agravada pela mobilização militar.
Nivievskyi alerta que o bloqueio dos portos ucranianos reduziu o Produto Interno Bruto (PIB) do país em cerca de 6% em 2022. Caso a crise atual persista até o fim do outono, os impactos econômicos podem ser ainda mais severos.
Ucrânia busca ajuda financeira
Hopka estima que a falta de exportações por via marítima impedirá a venda de cerca de 9 milhões de toneladas de produtos agrícolas entre agosto e outubro.
As receitas em moeda estrangeira adiadas ou perdidas nesse período podem alcançar aproximadamente 1,9 bilhão de dólares.
Diante desse cenário, o governo ucraniano já prorrogou e ampliou programas de crédito voltados ao agronegócio. Além disso, Kiev solicitou à Comissão Europeia uma ajuda não reembolsável de 220 milhões de euros.
Os recursos deverão beneficiar principalmente pequenos e médios produtores, auxiliando no pagamento de juros de empréstimos. O objetivo é criar uma carteira de crédito de até 4 bilhões de euros, permitindo financiar capital de giro para agricultores com juros anuais de até 10%.
Assessoria/Lilia Rzheutska/Caminho Político
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