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"Parecia filme de desastre": a fúria das queimadas na Europa

Publicado em 29/07/2026 16:16
"Parecia filme de desastre": a fúria das queimadas na Europa

Incêndios florestais começam a ficar mais estáveis na Espanha e na França, mas milhares seguem deslocados e nova onda de calor mantém autoridades em alerta. Residentes relatam perdas, medo e ansiedade diante do futuro. Bombeiros continuam combatendo grandesincêndios florestais na França e na Espanha enquanto os dois países se preparam para uma nova onda de calor, que deve elevar as temperaturas a mais 40°C nesta quarta-feira (29/7). As chamas, que atingem áreas próximas a Bordeaux e Madri, já obrigaram mais de 300 mil pessoas a deixar suas casas.
A situação permaneceu relativamente estável durante a noite. As chamas não avançaram para novas áreas, mas também não foram controladas, informaram as autoridades.
A previsão de calor extremo combinada com ventos fortes aumenta o risco de novos focos e dificulta os esforços para conter os incêndios, uma semana após seu início. Trata-se da quarta onda de calor registrada na Europa neste verão.
Na França, 14 focos voltaram a se intensificar em regiões que já haviam sido atingidas pelo incêndio. Novos focos surgiram na terça-feira nas proximidades de Grand Crohot, uma das praias mais populares da península de Lège-Cap-Ferret. Para conter o avanço das chamas, a operação aérea foi ampliada para 23 aviões e helicópteros lançando água e retardante químico sobre a região.
O avanço das temperaturas elevou a gravidade da situação a um novo patamar. Na França, os incêndios atingiram uma intensidade capaz de influenciar as próprias condições meteorológicas.
A coluna de fumaça formou uma tempestade do tipo pirocumulonimbus. O fenômeno, capaz de gerar raios e ventos imprevisíveis, é considerado raro na Europa e antes inédito na França.
Ao sul de Lège-Cap-Ferret, na costa atlântica francesa, voluntários seguem trabalhando dia e noite para abastecer os bombeiros com água.
"Despejamos 8 mil litros em uma área e, uma hora depois, o fogo recomeça", relatou o voluntário Pierre Marie à AFP após um turno de 12 horas. "Tememos cada dia que passa."
Moradores tentam voltar para casa na Espanha
Na região de Madri, dois grandes incêndios se uniram na sexta-feira e depois se conectaram a outro foco ativo na província de Ávila. As chamas também avançaram para Toledo, levando o governo espanhol a decretar pela primeira vez uma emergência nacional por incêndios florestais.
Em uma rara notícia positiva, o Ministério do Interior da Espanha anunciou na terça-feira o fim das ordens de evacuação em 15 municípios. Segundo o governo, a medida permitiu o retorno de dezenas de milhares de moradores às suas casas.
Em Navas del Rey, Maria Paz Bolaños, de 62 anos, retornou com a família para sua casa em um conjunto residencial e encontrou apenas danos superficiais.
"Vivemos aqui há 50 anos", disse. "Deve ter sido meu avô, meu pai no céu. De alguma forma, fizeram com que o fogo chegasse até aqui e parasse exatamente neste ponto", afirmou à AFP, apontando para o local onde as chamas interromperam seu avanço no estreito jardim da propriedade.
Para milhares de moradores deslocados, porém, a principal preocupação é descobrir o que restou de suas casas.
Nem todos tiveram a mesma sorte de Maria Paz Bolaños. Em Navas del Rey, um pai e seus dois filhos vistoriavam em silêncio os estragos deixados pelo fogo. A residência da família não resistiu às chamas.
A emoção era evidente enquanto os três caminhavam pelos cômodos destruídos, completamente carbonizados.
Em Navaluenga, Magaly Vargas chorava diante do monte de cinzas onde antes ficava seu trailer. "Aqui era onde eu morava", disse. "Não sobrou nada. É terrível."
Ao redor dela, telhados retorcidos e estruturas metálicas deformadas emergiam dos escombros do camping Pantano del Burguillo, a oeste de Madri.
"Isto aqui era uma casa", afirmou a coproprietária do camping, Maria Angeles Cañete, de 54 anos, apontando para os restos das estruturas cujas paredes plásticas derreteram durante o incêndio.
"Perdemos tudo", disse Cañete, contendo as lágrimas. "Não temos mais nada." O prefeito da cidade próxima de Pelayos de la Presa, Antonio Sin, descreveu a situação como uma "zona de guerra".
"Foi um incêndio horrendo, brutal. É um monstro que nos atropelou", declarou.
Outros moradores ainda não receberam autorização para retornar. Elvira Menéndez passará a terceira noite em um abrigo improvisado em um complexo esportivo de Villaviciosa de Odón, a cerca de 40 minutos de sua residência. Ela precisou deixar a região quando as chamas se aproximaram.
Situação semelhante vive Rocío Domínguez, que fugiu levando apenas a roupa do corpo. "Todas as roupas, todas as lembranças, tudo ficou para trás", disse.
Na França, incerteza sobre o retorno
Franceses também tiveram que lidar com a mudança de perspectiva do dia para a noite devido ao rápido avanço das chamas.
A mensagem de alerta no celular de Morgane Bonichot chegou de madrugada, marcada como "URGENTE" e acompanhada por um sinal sonoro estridente. "Evacue agora", dizia o aviso.
Ela acordou sobressaltada. Pegou a filha de 9 anos, o coelho de estimação e o cachorro e fugiu. Ao todo, as autoridades esvaziaram 20 cidades e vilarejos. Alguns foram diretamente atingidos pelas chamas. Outros, localizados entre a frente do incêndio e Bordeaux, foram evacuados preventivamente. A prioridade é evitar qualquer perda de vidas.
"Saímos simplesmente assim", relatou Bonichot. "Meu carro estava quebrado, então os vizinhos tiveram que me levar com minha filha e os animais."
Ela agora está em um grande centro de exposições transformado pelas autoridades de Bordeaux em abrigo temporário.
"O que mais me angustia é pensar no futuro, porque a situação piora a cada ano", afirmou. "Isso vai se tornar uma catástrofe."
No mesmo abrigo, Florence, ex-assistente de ensino em uma escola primária, relatou ao jornal britânico The Guardian os momentos que antecederam sua evacuação de Le Haillan, na periferia de Bordeaux.
"Fiquei desesperada. Sou asmática. Coloquei fita adesiva nas janelas, mas mesmo assim sentia o cheiro da fumaça entrando por baixo da porta", contou. Segundo ela, o céu havia adquirido tons alaranjados e acinzentados, enquanto fuligem cobria a região.
"Parecia um filme de desastre. Eu sempre gostei desse tipo de filme, mas agora sinto que participei de um. Não quero assistir a outro nunca mais", afirmou ao The Guardian.
Em entrevista ao portal francês La 1ère, Carine Lamartinière, moradora de Saint-Médard-en-Jalles, também disse que acreditava não correr riscos por viver longe de áreas florestais.
"Quando saí para fazer compras depois do trabalho, vi que o céu estava diferente, avermelhado. Quando voltei, já havia cinzas sobre o carro e o ar estava ficando difícil de respirar. Então soube que a cidade vizinha havia sido evacuada", contou.
Também ao La 1ère, Régis Botino, retirado de casa às três da manhã, relatou o clima de apreensão.
"Existe uma ansiedade constante, sufocante, porque o fogo está cada vez mais perto. Agora é uma corrida contra o tempo. Precisamos deter esse monstro que devora a floresta e nos perguntamos até onde ele vai chegar. Nunca vivi nada parecido."
gq (AFP, Reuters, AP, OTS)Redação DW/Caminho Político
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