Infantino recua e desiste de abrir Fifa a investidores
Após ser pressionado por dirigentes de futebol em todo o mundo, o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, recuou neste sábado (01/08) do plano de abrir a Copa do Mundo a investidores privados. "Nosso objetivo sempre foi e sempre será unir e melhorar", disse o chefe da entidade máxima do esporte em comunicado. "Como resultado, essa proposta não seguirá adiante." Infantino queria vender a investidores privados uma participação nos lucros futuros das Copas do Mundo e de todos os eventos da Fifa.
Entre os potenciais investidores estaria a Thrive Eternal, empresa liderada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Países europeus reagiram aos planos ameaçando boicotar as competições da Fifa, confederações regionais afirmaram ter sido pegas de surpresa e integrantes da alta cúpula da entidade acusaram Infantino de ter enganado a todos.
"Depois de ouvir atentamente todas as opiniões, ficou claro que o projeto criou divisões de tal natureza que, independentemente do nível de apoio, já não atende ao objetivo originalmente estabelecido", afirmou o cartola.
As fortes reações contrárias põem em risco o futuro de Infantino na presidência da entidade. O suíço-italiano está há 11 anos à frente da Fifa e deve tentar se reeleger para um mandato de mais quatro anos em 2027.
Qual era o plano de Infantino para a Copa do Mundo?
O projeto de Infantino veio à tona na terça-feira. Ele previa a separação das operações comerciais da Fifa em uma nova subsidiária de 20 bilhões de dólares, a Fifa Forward Enterprise (FFE), com pouco mais de 20% de participação pertencente a investidores privados, que aportariam até 4,2 bilhões de dólares no negócio. A FFE passaria então a administrar as competições da entidade, como a Copa do Mundo e a Copa do Mundo de Clubes.
Infantino apresentara a proposta como uma oportunidade de "turbinar" o financiamento para o desenvolvimento do futebol ao redor do mundo, uma vez que a maioria dos membros da Fifa depende desses recursos.
Hoje, a Fifa é uma associação sem fins lucrativos sob a legislação suíça. Seus donos são as 211 federações-membros.
Na terça-feira, Infantino escrevera às federações afirmando que, se aprovassem a FFE até meados de setembro, o financiamento básico prometido para os próximos quatro anos dobraria de 10 milhões de dólares para 20 milhões de dólares.
Uefa ameaçou boicotar Copa e outros eventos
Dois dias depois de os planos de Infantino virem a público, a Uefa, que reúne seleções de 55 países, anunciou que não participaria mais de competições organizadas pela entidade enquanto as propostas de abertura da Fifa a investidores privados estiverem na mesa.
"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento", disse a Uefa em nota, acusando o cartola de "intimidação" e "coerção". "Há coisas que simplesmente são importantes demais para serem vendidas."
Ao justificar o boicote, a Uefa disse temer que a entrada de investidores privados deixe o esporte refém da obrigatoriedade de gerar lucros, colocando federações e atletas sob pressão. " O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro", argumentou.
Reprovação também de outros membros da comunidade internacional do futebol
A Confederação Asiática de Futebol, que representa 47 países-membros, saudou neste sábado a retirada da proposta.
Qualquer iniciativa que possa afetar o futebol mundial deve ser "apresentada e discutida com as Confederações, o Conselho da Fifa, as Associações Membros e outras partes interessadas de maneira oportuna, transparente e significativa", afirmou a entidade em comunicado.
A Federação Mexicana de Futebol também celebrou a decisão, afirmando que "a unidade entre todas as Confederações e Federações foi priorizada em benefício do futebol".
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) e a confederação da América do Norte, América Central e Caribe (Concacaf) também haviam condenado a iniciativa.
A confederação sul-americana Conmebol, cujo presidente, Alejandro Domínguez, é considerado um aliado próximo de Infantino, exigiu mais informações sobre o "alcance, estrutura, governança e potenciais efeitos" do projeto.
Fim da era Infantino na Fifa?
A pressão sobre Infantino havia aumentado na sexta-feira com a renúncia do conselheiro sênior Carlos Cordeiro, que classificara a ideia como um "mau negócio" para as associações membros da Fifa, para o futebol e para o futuro de longo prazo do esporte.
Neste sábado, a Fifa voltou a ser cobrada por mais transparência após arquivar abruptamente os planos.
A rápida mudança de posição expôs o crescente desconforto dentro do futebol mundial com o estilo de liderança de Infantino, com dirigentes exigindo maior supervisão sobre decisões que poderiam remodelar a governança e o futuro comercial do esporte.
A controvérsia surge em um momento delicado para Infantino, que afirmou em abril que pretende disputar a reeleição para um quarto mandato como presidente da Fifa. Desde que sucedeu Sepp Blatter em 2016, ele foi reeleito duas vezes sem oposição e parecia ter controle firme sobre a organização.
ra (AP, AFP, Reuters, DW)Caminho Político
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