Fim da várzea? Como a formação mudou o futebol brasileiro
Menos futebol de rua, especialização precoce e maior pressão sobre jovens atletas levantam dúvidas sobre os impactos da formação atual na identidade e no estilo de jogo do Brasil. O desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo deste ano gerou questionamentos sobre a formação dos atletas de futebol do país. As razões apontadas para que o talento nacional tenha deixado de sobressair são muitas, mas especialistas reforçam a importância de que os jovens tenham mais contato lúdico com a bola desde cedo, uma característica comum a grandes craques nacionais. Outro ponto é a estrutura atual das categorias de base dos clubes, embora projetos venham tentando mudar esse cenário.
Para muitos, o chamado "jogo bonito" brasileiro é uma espécie de mistério ou dom. No entanto, para analistas que observam mais de perto o desenvolvimento nacional, o estilo é, em parte, fruto da adaptação à prática em terrenos adversos desde a infância. Geralmente na rua ou em campos esburacados e de areia, tendências que vêm sendo limitadas.
Além de questões urbanísticas, que extinguiram muitos campos de várzea e limitaram a possibilidade de se jogar na rua, a formação dos atletas hoje muitas vezes restringe a prática "sem compromisso".
"Nossa formação sempre ocorreu muito por meio da prática de jogar. Já na estrutura formal, como nos clubes hoje, há menos espaço para isso, um contato menor com o jogo, e isso ocorre cada vez mais cedo. Além disso, a atividade é mais controlada para evitar desgastes", avalia Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
Ele lembra que enquanto atletas de sua geração costumavam sair de treinos para praticar com amigos na rua, hoje há maior controle nas atividades dos jovens, visando, inclusive, preservá-los de lesões, uma vez que muitos já contam com compromissos semelhantes aos de profissionais.
Além disso, ainda que o futebol seja visto como um esporte aberto a todas as classes sociais, seguir o sonho de virar profissional hoje, em uma estrutura que demanda maior acompanhamento físico, pode acabar limitando clubes e atletas com menos recursos.
"A formação esportiva ficou mais cara, ainda que alguma desigualdade sempre existisse. Muitas vezes, garotos talentosos sem condição financeira não conseguem chegar aos clubes", aponta Heglison Toledo, professor na Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Durante a Copa, o ex-jogador da seleção americana Landon Donovan criticou a estrutura da formação de jovens no futebol em seu país, dizendo que teria "zero chance" de se tornar atleta do esporte com os custos atuais. Ainda que o cenário brasileiro seja diferente, as chamadas escolinhas têm se tornado um negócio que representa a alta dos custos da prática para muitos, incluindo franquias com centenas de unidades e mensalidades que chegam a R$ 700.
Nestes casos, as disputas de torneios que podem atrair melhores oportunidades costumam ser as grandes ofertas e justificativa para o custo, incluindo intercâmbios e campeonatos fora do país. Outro serviço em alta é a produção de conteúdo com atuações dos jovens atletas, algo cada vez mais levado em conta em avaliações.
Pressão desde muito cedo
Quando se trata do quadro da formação atual, Machado faz dois questionamentos: "estamos nos especializando para revelar atletas ou para formamos os jogadores? Será que estamos desenvolvendo a metodologia certa para todas essas capacidades?".
Para Toledo, em um cenário com grande pressão para que jovens estreiem profissionalmente o mais cedo possível, "um garoto de 14 anos que começa a assinar contratos não vislumbra muitas vezes a melhoria do desempenho, e sim a melhor oportunidade".
Machado lembra o grande número de jogadores brasileiros no exterior para reforçar que a revelação de atletas segue ocorrendo, mas que a questão é se "as características destes jogadores são suficientes para que o Brasil tenha o protagonismo esperado no futebol de seleções".
Em sua visão, na estrutura atual, "as formações dos atletas se adaptaram para atender uma demanda mundial que busca os jogadores brasileiros", o que influencia nas características de jogo desenvolvidas desde cedo.
O Brasil é o país do mundo com o maior número de jogadores atuando no exterior, aponta o Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES). Segundo relatório, mais de 1,4 mil atletas brasileiros jogam fora do país, distribuídos em 135 ligas estrangeiras.
Assessoria/Matheus Gouvea de Andrade/Caminho Político
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