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"Coolcation": busca por destinos frescos pressiona natureza

Publicado em 17/08/2026 15:39
"Coolcation": busca por destinos frescos pressiona natureza

Ondas de calor extremo na Europa têm redirecionado turistas, provocando aumento de viagens para destinos "mais refrescantes" em países nórdicos. Especialistas alertam que novo fluxo tem impactos negativos em ecossistemas. Uma crista montanhosa com vistas panorâmicas sobre Jotunheimen,, uma região montanhosa no sul da Noruega, parecia o lugar ideal para o operador turístico Georg Sichelschmidt levar visitantes para trilhas. Até ele descobrir, por moradores locais, que aquele era o lar buscado pelas águias para construir os seus ninhos. 
A trilha permaneceu aberta. Mas Sichelschmidt não queria perturbar as aves de rapina, que vivem entre os enormes picos, lagos de águas azul-turquesa e geleiras da região. "Decidimos deixar de usar essa trilha. Tivemos de encontrar outra solução."
Na Noruega, um direito de livre acesso à natureza garante ampla circulação em áreas naturais, independentemente da propriedade da terra, mas também exige respeito ao meio ambiente. Para Sichelschmidt, que se mudou da Alemanha para a Noruega há 16 anos atraído pela natureza, a decisão foi simples.
Mas, com as mudanças climáticas transformando os hábitos de viagem no verão, proteger a natureza exigirá muito mais do que decisões individuais. Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ondas de calor mais longas e intensas no sul da Europa estão aumentando o interesse por destinos mais frescos. 
Essa mudança desperta preocupações sobre a capacidade de a natureza em países como a Noruega suportar o aumento do fluxo de visitantes.
O calor muda o turismo?
O setor de turismo cunhou o termo "coolcation" (um neologismo no inglês que junta as palavras "localização" e "fresca") para descrever a busca por destinos menos quentes durante o verão.
Mas empresas de reservas, hotéis e companhias aéreas não divulgam dados que permitam identificar quantos viajantes mudam de destino exclusivamente por causa do calor. Por isso, ainda é cedo para determinar a dimensão dessa tendência, afirma Daniel Scott, professor especializado em clima e turismo da Universidade de Waterloo, no Canadá.
"Ainda assim, sabemos que as pessoas estão pensando nisso. Algumas dizem que já estão agindo dessa forma."
Sichelschmidt relata que já percebe a tendência na prática. Segundo ele, operadoras parceiras que oferecem viagens tanto para o Mediterrâneo quanto para a região nórdica registram aumento da procura por férias ativas no norte da Europa, com atividades como caminhadas e ciclismo.
"É difícil fazer trilhas na França, na Espanha ou na Itália em julho e agosto quando as temperaturas superam os 40°C. Os países nórdicos são uma boa opção para escapar disso", diz. Segundo ele, as viagens ao Mediterrâneo estão migrando cada vez mais para a primavera e o outono.
Mais visitantes, mais pressão sobre a natureza
O norte da Noruega já oferece uma amostra dos impactos que o crescimento do turismo pode ter sobre ambientes frágeis.
O arquipélago de Lofoten, conhecido por seus penhascos dramáticos, fiordes profundos e praias selvagens, abriga cerca de 25 mil habitantes. Em 2025, registrou mais de 807 mil pernoites em hospedagens comerciais, segundo dados oficiais.
O aumento da procura por destinos mais frescos corre o risco de ampliar ainda mais a pressão sobre os ecossistemas locais. A região abriga centenas de espécies de aves, incluindo colônias de papagaios-do-mar. As aves ficam particularmente vulneráveis durante a época de reprodução, no final do verão.
Outros animais também podem sofrer impactos, como as renas durante a temporada de parto, entre maio e o início de junho, explica Elina Hutton, pesquisadora de turismo da Universidade Ártica da Noruega (UiT). 
Além disso, as áreas de vegetação costeira, turfeiras e ecossistemas alpinos de Lofoten são extremamente sensíveis ao pisoteio. Quando caminhantes transitam sobre terrenos úmidos, podem danificar raízes e remover a fina camada de solo que cobre a rocha das montanhas.
Utilizando dados de satélite, Hutton monitora os efeitos do aumento do turismo sobre as trilhas da região. Na rota que leva à praia de Kvalvika, uma enseada isolada acessível apenas a pé, os trechos mais degradados já alcançam cerca de 20 metros de largura, destruindo a vegetação ao redor.
Nos ecossistemas do norte da Noruega, a recuperação ambiental é lenta. "Esse tipo de dano é praticamente permanente aqui", afirma Hutton, que recomenda aos visitantes permanecerem nas trilhas estabelecidas, em vez de procurar "lugares secretos".
Turismo responsável
Sichelschmidt acredita que operadores turísticos podem ajudar a reduzir impactos ambientais conduzindo visitantes para trilhas adequadamente administradas e evitando áreas ecologicamente mais sensíveis.
"Quando falamos de grandes volumes de pessoas, precisamos orientá-las para locais onde seja possível manter as trilhas sem destruir a natureza", diz.
Mas decisões como evitar a área das águias não podem depender apenas das operadoras de turismo. As autoridades locais precisarão definir quais áreas devem receber visitantes, quais exigem maior proteção e qual nível de pressão os ecossistemas conseguem suportar.
A Noruega já vem testando estratégias para administrar o crescimento do turismo. Por meio de uma nova legislação, comunidades especialmente afetadas pela atividade turística poderão cobrar uma taxa de hospedagem de 3% a partir de 2027.
Segundo Hutton, a medida não deve reduzir o número de visitantes, mas poderá ajudar a melhorar a gestão dos destinos. "Pelo menos ela nos dá mais ferramentas e mais recursos para construir trilhas melhores, instalar mais banheiros e criar infraestrutura adequada para receber esse volume de turistas."
Alguns países também apostam em iniciativas de ecoturismo que envolvem os próprios visitantes em ações de conservação. Nas Ilhas Faroe, por exemplo, o programa "Fechado para manutenção" convida voluntários a restaurar trilhas e cuidar de áreas naturais antes de sua reabertura ao público.
Ainda assim, Hutton aponta que destinos turísticos, municípios e empresas precisam refletir cuidadosamente sobre quantos visitantes podem receber e como distribuir o fluxo turístico ao longo do ano. "Não é bom para ninguém simplesmente receber mais turistas."
Até os destinos "frescos" esquentam
Mas encontrar destinos consistentemente mais amenos pode se tornar cada vez mais difícil no contexto das mudanças climáticas.
Daniel Scott compartilhou com a DW resultados preliminares de um estudo ainda não publicado sobre a evolução dos riscos de calor nas cem cidades turísticas mais importantes do mundo. A pesquisa sugere que turistas estarão cada vez mais expostos a temperaturas elevadas e a riscos associados ao calor extremo.
De acordo com a análise, apenas nove cidades, entre elas a irlandesa Dublin, a neozelandesa Auckland e a americana São Francisco, registraram menos de dez dias por ano com temperaturas iguais ou superiores a 32°C no período entre 2015 e 2025.
Até a década de 2050, esse número deverá cair mais da metade. "As mudanças climáticas também nos afetam de uma forma ou de outra, e nenhum destino sairá vencedor se a situação continuar evoluindo dessa forma", diz Hutton.
Especialistas criticam o uso do termo "coolcation", que interpretam como a celebração de uma oportunidade econômica gerada pelas mudanças climáticas, que têm o potencial de causar impacto negativo sobre a vida na Terra.
Assessoria/Ardit Toca/Caminho Político
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